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domingo, 10 de maio de 2015

MADONA SISTINA



Sistine Madonna - Rafael Sanzio (1483-1520)


Para comemorar o Dia das Mães, compartilho um dos dois capítulos do belo e comovente ensaio "Madona Sistina", do escritor russo Vassíli Grossman (1905-1964), sobre o famoso quadro homônimo de Rafael Sanzio (1483-1520), pintor italiano. 



"As forças soviéticas vitoriosas, depois de aniquilarem o Exército da Alemanha fascista, recolheram quadros do acervo do Museu de Arte de Dresden e os levaram para Moscou. Esses quadros permaneceram trancados por quase dez anos.

Na primavera de 1955, o governo soviético resolveu devolvê-los a Dresden. Antes, porém, eles seriam expostos em Moscou durante três meses.

E assim, na fria manhã do dia 30 de maio de 1955, depois de subir a Volk-honka por entre os cordões com os quais a polícia moscovita controlava a multidão que queria ver os Grandes Mestres, entrei no Museu Púchkin, subi ao 1º andar e me aproximei da Madona Sistina.

Desde o primeiro olhar, uma coisa se impõe imediatamente, uma acima de todas: ela é imortal.

Compreendi que até aquele momento eu havia sido leviano no emprego desta palavra assombrosa: imortal. Compreendi que confundira a imortalidade com a poderosa vitalidade de certas realizações humanas particularmente sublimes. E nesse momento, venerando Rembrandt, Beethoven e Tolstói, eu soube que, dentre todas as obras criadas por pincel, buril ou pena que haviam tomado meu coração e meu espírito, somente aquele quadro de Rafael permaneceria vivo enquanto não desaparecessem os homens. E que um dia, talvez, se acaso desaparecessem, outras criaturas que viessem a tomar o lugar deles – lobos, ratos, ursos ou andorinhas – também se precipitariam sobre as quatro patas ou bateriam as asas para ver a Madona...

Doze gerações viram este quadro – um quinto das gerações que povoaram a terra desde o princípio dos tempos históricos até os nossos dias.

Ele foi visto por mendigos e imperadores da Europa, por estudantes, por milionários que vieram de além-mar, por papas e príncipes russos. Foi visto por jovens virgens e por prostitutas, por coronéis de estado-maior, ladrões, gênios, tecelões, pilotos de bombardeiros e professores do primário. Foi visto por bons e maus.

Desde que este quadro existe, impérios europeus e coloniais ascenderam e ruíram, surgiu a nação americana, as fábricas de Pittsburgh e Detroit entraram em atividade, revoluções ocorreram e a estrutura social do mundo se transformou. Ao longo desses séculos, a humanidade deixou para trás as superstições dos alquimistas, o tear manual, os mosquetes e as alabardas, o barco a vela e a carruagem puxada a cavalo. A humanidade entrou na era dos geradores elétricos e das turbinas; na era dos reatores atômicos e das bombas de hidrogênio. Ao longo desses séculos, grandes cientistas configuraram um novo entendimento do universo: Galileu escreveu o seu Discurso, Newton os seus Principia, Einstein a Eletrodinâmica dos corpos em Movimento. Ao longo desses séculos, Rembrandt, Goethe, Beethoven, Dostoiévski e Tolstói enriqueceram nossa alma e tornaram a vida mais bela.

O que vi foi uma jovem mãe com uma criança nos braços.

Como será possível transmitir a graça de uma macieira esguia ao gerar a sua primeira maçã, pálida e pesada; a graça de um passarinho com seus filhotes recém-saídos da casca; a graça de uma jovem corça que acabou de parir... O desamparo – a maternidade recente – de uma mocinha, de uma menina, ainda quase uma criança...

Depois de ver a Madona Sistina, já não se pode dizer que essa graça seja inefável ou misteriosa.

Na sua Madona, Rafael revelou o mistério da maternidade e de sua beleza. Mas não é disso que depende a vitalidade inexaurível do quadro. O segredo dessa vitalidade está no fato de que o corpo e o rosto desta jovem mulher são, na verdade, a sua alma. Nessa representação visual de uma alma de mãe há algo de inacessível à consciência humana.

Sabemos que as reações termonucleares transformam a matéria em uma enorme quantidade de energia, mas ainda não concebemos o processo inverso, isto é, a transformação de energia em matéria. Aqui, no entanto, uma força espiritual – a maternidade – se cristalizou, transmutada numa doce e humilde Madona.

Sua beleza está estreitamente ligada à vida terrena. É uma beleza democrática, humana, inerente à massa dos seres humanos – aos de pele amarela, aos estrábicos, aos corcundas de nariz pálido e pontiagudo, aos negros de cabelos crespos e lábios grossos. É uma beleza universal. Esta Madona é a alma e o espelho do humano, e todos os que a veem enxergam nela a própria humanidade. Ela é a imagem da alma materna, e por isso sua beleza se entrelaça e se confunde para sempre com a beleza oculta, indestrutível e profunda de toda vida que é gerada – nos sótãos, nos celeiros, nos palácios ou nos porões.

Creio que esta Madona é a expressão mais ateísta possível da vida, do que é humano, sem participação divina.

Por uns instantes, pareceu-me que exprimia não só o humano, mas também qualquer coisa de inerente à vida terrena num sentido ainda mais amplo, a todo o mundo animal. Nos olhos escuros da égua, da vaca ou da cadela que alimenta sua cria, podemos ver, ou adivinhar, a sombra miraculosa da Madona.

E mais terrena ainda me parece a criança que ela tem nos braços. Seu rosto é mais adulto que o da mãe.

Seu olhar é triste e sério, voltado diretamente para o que está à frente e, ao mesmo tempo, para dentro de si. É um olhar capaz de conhecer, de ver o destino.
Ambos os rostos são calmos e tristes. Talvez vejam o Gólgota e a estrada poeirenta e pedregosa que os conduz morro acima, e a horrenda e pesada cruz de madeira tosca, apoiada neste ombro tão pequeno que por ora sente apenas o calor do peito materno.

Vem um aperto no coração, mas não de angústia nem de dor. É um sentimento novo, jamais experimentado. É um sentimento humano e no entanto novo, como se acabasse de emergir das salgadas e amargas profundezas do oceano, e tão insólito em sua novidade que faz o coração disparar.

Está aqui outra característica única deste quadro.

Ele suscita algo novo, como se às setes cores do espectro fosse acrescentada uma oitava cor, jamais vista.

Por que não há medo no rosto da mãe? Por que os seus dedos não se estreitam em torno do corpo do filho, com tal força que nem a morte seria capaz de descerrá-los? Por que ela não quer subtrair o filho ao seu destino?

Ela o estende para a frente e o oferece ao destino; não tenta escondê-lo.


E o menino não esconde o rosto no peito da mãe. De fato, está prestes a se desgarrar do abraço e ir ao encontro de seu destino com seus pezinhos descalços.

Como explicar, como compreender isso?

Os dois são um só, e são distintos. Eles veem, sentem e pensam juntos, estão fundidos um no outro, mas tudo indica que vão se separar, que não podem deixar de fazê-lo, que a essência de sua comunhão, de sua fusão, está em separar-se.

Ocorre que, em certos momentos difíceis, são as próprias crianças que assombram os adultos com seu bom-senso, sua serenidade e sua aceitação do destino. Filhos de camponeses deram prova dessa qualidade em anos de fome, assim como filhos de comerciantes e artesãos judeus durante o pogrom de Kishinev, como filhos de mineiros de carvão quando o gemido de uma sirene anuncia ao acampamento em pânico uma explosão nos subterrâneos da mina.

Aquilo que é humano no homem vai ao encontro do seu destino, e em cada época o destino é peculiar, é distinto do que foi para a época precedente. O que esses diversos destinos têm em comum é o fato de serem todos igualmente difíceis.

Mas o que é humano no homem continua a existir, mesmo quando o pregaram numa cruz ou o torturaram numa prisão.

Isso que é humano no homem continua a viver nos abrigos de pedra, no frio de 50 graus abaixo de zero, nos acampamentos de lenhadores na taiga, nas trincheiras alagadas de Przemysl e de Verdun. Continua a viver na existência monótona dos empregados de escritório, na miséria das lavadeiras e das mulheres da limpeza, na labuta sem alegria dos operários de fábrica, na luta vã contra a necessidade, até a exaustão.

A Madona com o filho nos braços é o que no homem existe de humano, e nisso reside a sua imortalidade.

Olhando a Madona Sistina, nossa época toma consciência do próprio destino. Cada época contempla esta mulher que carrega o filho nos braços, e entre os homens de diferentes gerações, de povos, raças e tempos diversos nasce uma fraternidade que é terna, comovente e dolorosa. O homem toma consciência de si, da cruz que deve carregar, e de súbito compreende o elo milagroso que une todas as épocas, a ligação entre o que vive agora e tudo o que jamais viveu e viverá."



Vassíli Grossman  nasceu em 1905 em Berdichev, cidade que tinha uma das maiores populações judaicas da Europa Central. Formado em química em 1929, logo abandonou a profissão e passou a viver da literatura. Sua obra mais conhecida, Vida e Destino, é considerada o maior romance russo do século XX.




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